A história de Milk, o gato surdo

Hoje nosso post está diferente e quem vai contar a história não sou eu e sim a Elma Dezem. Elma é uma leitora da nossa página e nos acompanha em nossas redes sociais.

Certo dia ela comentou que tinha um gatinho surdo e me falou lá no Facebook sobre como foi a adaptação e o resgate desse gatinho. Eu achei tão legal que resolvi dividir com vocês! Então, deliciem-se com essa linda história!

Milk é o nome dessa fofura que só trouxe alegria para a casa da nossa amiga Elma. Além dele, ela tem outras fofuras, mas vou deixar ela mesma contar essa história.

“Em 2006 eu perdi o meu amado companheiro de 16 anos e meio, foi devastador. Sempre disse que eu gerei e pari o Wotan, um Himalaio enorme, amoroso, entendia o que eu falava e conversava comigo. 

Wotan

Wotan na capa da revista Atrevida.

Alguns meses depois conheci uma cuidadora, porque estava procurando um gato para adoção e em sua página havia um gato branco com um rabo cotoco. Um filho não substitui outro, mas eu não consegui ficar sem um companheiro, um filho felino. Toda a minha família tem e ama gatos.

Fui conhecer a cuidadora e conhecer os seus filhotes. Ela não tinha gatos adultos. Disse a ela que estava lá especificamente por causa do gatinho branco da foto e foi amor a primeira vista!

Todos os gatinhos estavam brincando como loucos e ele dormindo. Peguei ele no colo e ele nem abriu os olhos. Aos quatro meses e meio fui buscá-lo e  estava na época da busca de gatos pretos para sacrifício (Quando adotei o Milk e o Ziggy, o Halloween estava próximo. Nesse período os cuidadores e ONGs costumam não permitir a adoção de gatos negros, porque tem pessoas com cara de boazinhas que adotam nessa época e praticam atos bárbaros), então, ela pediu para eu levá-lo e lógico que eu disse sim. Peguei meus filhos e deixei marcada a castração.

gato

Ziggy (gatinho preto) e Milk (gatinho branco) com 8 meses.

Logo no início não percebi que ele era surdo, o que acontece com gatos brancos, principalmente de olhos azuis. Alguns veterinários dizem que são albinos e como albinos, têm várias deficiências.  Ele brincava com o Ziggy, mas quando dormia, desmaiava. A minha mãe chegou a ficar apavorada, porque podíamos sacudi-lo que ele não acordava. Ele era tão pequeno para quatro meses e meio, que pensamos que não fosse crescer muito, nos enganamos.

Atrás do meu apartamento tem uma favela e durante o foguetório, o Ziggy corria e se escondia e ele ficava olhando. A cada dia ficava mais desconfiada que ele tinha problemas de audição, porque várias coisas que são normais nos gatos que ouvem, não aconteciam com ele. Passei a testar com várias ferramentas que eu tinha disponível. Chamar pelo nome, palmas, deixar cair tampas de panela, assovio, apito e ele não nunca reagiu a nenhum som.

Quando levei-o para vacinar, disse isso para o meu veterinário, ele também testou e confirmou que ele era surdo.

Não há resposta para um gato surdo, é preciso que ele veja você e que entenda os gestos. Um gato surdo jamais poderá viver em uma casa que fique solto e que tenha acesso à rua e outras casas. Pode ser atropelado, atacado por cães e o mais terrível, atacado por aqueles que deveriam protegê-los. Eu moro em apartamento e é todo telado, exceto a janela do banheiro que está constantemente fechada. Quando me comunico com ele, fico na sua frente, se não consigo ficar de frente para ele, ou pego no colo, ou toco nele. Gato não fala com sinais e não lê lábios, mas é possível e não é difícil a adaptação, para mim não foi, sou uma mãe muito paciente.

Ele até acorda quando eu chego! 

Já tomei alguns sustos e um deles, quase que minha alma saiu do corpo. Todos sabem que a porta do banheiro deve ficar fechada obrigatoriamente, quando coloco comida especial para ele, fecho-o no banheiro e fecho a janela e travo.
Eu moro no 14º andar, um dia uma pessoa que estava na minha casa deixou a porta aberta. Eu ouvi ele miar e fui procurá-lo, fui à varanda e ele estava na janela do banheiro, tentei ficar calma para não assustá-lo. Quando ele me viu na varanda começou a miar mais alto e ele já mia alto por consequência da surdez. Fui ao banheiro e fui chegando perto devagar para que ele não se assustasse, o tirei da janela e quase matei a pessoa que deixou a porta aberta.

Ele não ouve, mas tem muita sensibilidade através do olfato e dos tremores que os sons provocam, como quando a porta bate. Ele sabe que sou super protetora com ele e com os outros cinco também, isso provoca um certo agito. Por não ouvir, eles judiam um pouco dele, mas não machucam e quando isso acontece, ele corre e deita do meu lado.

Ele é surdo, não burro!  O Milk era a alma gêmea do Ziggy, que o protegia em todas as situações. Pela surdez do Milk, acabei me dedicando mais as necessidades dele e a nossa comunicação era imprescindível. Quando eram só os dois, nunca houve problema. Comecei a perceber que após a chegada da Xiquita, o Ziggy ficou muito próximo dela e acredito que começaram a ter ciúme. Ele brinca muito sozinho, como se estivesse brincando com um outro gato.  

Ele ficou muito desconfiado, porque o Ziggy começou a perseguí-lo pela casa, a Xiquita também. Os irmãos, Willian e Harry, conviveram com ele a partir de 45 dias e depois de algum tempo, o Willian começou a persegui-lo também. Não pense que ele é coitadinho, mas como não ouve, grita e corre para onde eu estou, porque os outros param. Eles dão tapas e o Ziggy já tentou mordê-lo, porque estava dormindo do meu lado.
Ele é muito desconfiado e quando algum deles começa a lambê-lo, um minuto depois ele sai e não deixa mais. Ele ainda dorme com a Xiquita e com o Ziggy, mas muito raramente.

Além da surdez, ele desenvolveu uma doença autoimune, estomatite. Os dentes ficaram muito frágeis e foram arrancados, exceto os caninos. Às vezes o procedimento dá resultado e a estomatite desaparece, mas não no caso dele, e a dele é extremamente severa. Como paliativo, já que não há cura, ele fez um tratamento com corticoide, o resultado foi prolongado, mas não definitivo. Hoje, quando ele começa a babar, levo para tomar corticoide. Não é muito recomendado usar com frequência, mas quero que ele tenha qualidade de vida, não quantidade.

Milk

Milk exibindo toda sua beleza.

Ele é diferente, anda diferente, reage diferente, tem a estrutura molinha, às vezes cai meio esborrachado. Não tenho pena, só amor, ele é feliz e é isso o que importa.

Brinco dizendo que ele é o meu trapinho, porque é tão molinho que se eu pegá-lo pela cintura, ele parece um pano quando se pendura no braço. Outro dia vendo ele brincar, tive certeza que ele estava brincando com o Wotan, porque muitas vezes chamei-o de Wotan.

O Wotan era meu filho, como se eu tivesse gerado e parido. Ele era tão especial, que conversava comigo e entendia tudo o que eu falava com ele, todos me diziam que ele parecia gente. Para mim ele era. Wotan foi o grande amor da minha vida e que sinto saudades até hoje, depois de quase 6 anos que ele encantou. 

Muitas pessoas quando souberam que o Milk era surdo, disseram para devolver, jogar na rua! As mesmas pessoas quando souberam que ele tinha uma doença autoimune disseram que eu deveria sacrificá-lo. Eu não deveria, mas não consigo ficar de boca fechada e acabo dando uma lição de moral.

Descobri que a grande maioria das pessoas que dizem amar animais, de fato querem ostentá-los. Compram e fazem o maior alarde, que é de tal raça, têm pedigree, o pai é campeão. Na minha página há inúmeros amigos pessoais e virtuais, e quase a totalidade é favor de adotar e jamais comprariam um bichinho. 

Não quero que me contem que há um gato passando por problemas, porque vou acabar sendo uma acumuladora. Meu apartamento tem 48m² e com 6 gatos, se eu for denunciada pela vigilância sanitária, eles podem tentar, TENTAR, retirar algum e só passando por cima do meu cadáver.
Tenho 65 anos e falo para cada um da minha família qual deles, eles vão herdar (Risos).

Cometi o pecado da compra em 1994. Comprei o Wotan, a Meggy, o Dodô, a Bast e a Michele, todos Persas. Todos viveram 16 anos e pouco mais, não me arrependo porque todos nos fizeram muito felizes. Nós os amávamos e eles a nós. Mas nunca mais faço isso!”

Eu não sei vocês, mas eu perdi o fôlego com essa história de amor! Milk teve muita sorte, mas infelizmente a maioria dos animais com problemas de saúde não têm. Muitas pessoas acabam abandonando seus filhotes ou sacrificando ao primeiro sinal de doença sem cura, mas convenhamos que muitas doenças com tratamento podem prolongar a vida e de forma digna ao animal.

A Elma lutou bravamente pela vida do Milk e mesmo tendo alguns problemas de convivência com os outros irmãos gatos (quem tem muitos gatos sabe que isso é muito comum) o Milk vive bem com um lar repleto de amor e carinho!

Muito obrigada Elma por dividir sua história com gente!

Espero que vocês tenham gostado da história do Milk tanto quanto eu! Mas conta aí, já teve um gatinho com alguma deficiência? Conta pra gente aqui nos comentários como foi o processo de adaptação.

Semana que vem a gente volta com mais dicas e cuidados pra vocês, até lá! 🐱

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10 Comentários

  1. Gente! Agradeço que tenham contado a história do Milk, ele não sabe ler e, infelizmente, não houve para que eu conte para ele, mas ele sabe que é muito especial para mim. Me ensina todos os dias o que é superação quando alguém se propõe a nos orientar.
    Brrrrru para todos dos meus filhos Milk (meu surdinho), Ziggy (meu malvado dengoso favorito), Xiquita (homenagem ao meu veterinário Chico Abrahão), Melly, Harry (o terrível) e Willian (o come quieto).
    =^..^=

    • Fabiana Xavier

      Nós que agradecemos a oportunidade de poder compartilhar uma história de amor tão linda!
      Bjs

  2. Luan Alexandre

    linda história, milk foi mt sortudo mesmo. Muitas pessoas não fariam um terço da metade, só pela surdez, imagina pela doença. Parabéns linda atitude.

    • Fabiana Xavier

      Olá Luan, tudo bem?
      Essa história é realmente inspiradora não é verdade?

      Abraços!

  3. Evelin

    Eu tenho gatinho de 90 dias Surdo 2 ouvido Albino e Olhos Impar (Heterocromia)
    fiz pagina facebook e instagram para contar sua historia e sua rotina.
    facebook: Sion o gatinho especial
    Intagran @sion_gatinhoespecial

  4. Juliana Mandetta

    Tenho um gato Branco surdo muito especial! Ele está comigo há 5 anos… eu revivi muitas coisas lendo seu relato, como quando eles dormem, que é impressionante… os testes de surdez que fizemos em casa… os problemas nos dentinhos também (apenas limpando e retirando o tártaro já melhoramos).
    Ele era um pequenininho gatinho de rua. Que ainda fazia miu miu… E andava desengonçado, bem magrinho… Ele não gosta de colo, ele mia muito alto e mia frequentemente, mede seu carinho a conta gotas e é um pouco mau humorado com sua doce companheira. Já tive muuuuitos gatos, nascidos em casa, adotados e abandonados e sei que ele é diferente por sofrimento e não por opção… Todos esses problemas podem ser decorrentes do abandono, frio, desnutrição e maus tratos. Mesmo sendo resgatado muito pequenino essas marcas ficam! Seu comportamento exige muito respeito, espaço, cuidados e atenção. Eu amo meu gatinho, sei o quanto ele é sensível, quando estou triste ou doente ele me procura e se instala no meu colo. Ou senta ao meu lado e me olha profundamente e pisca seus olhinhos bem devagar. Ele sente quando meu namorado está chegando a um quarteirão e mia mia mia. Mas quando o procuramos para dar carinho ele se esquiva e não quer saber… Mas aprendi formas de dar carinho e integra-lo: ele ama ser escovado, adora caçar uma varetinha com penas na ponta, gosta de (pasmem) brincar de pega pega ( vice foge e ele corre atrás de vc, depois vc corre atrás dele). Ele adora ver o vídeos no meu celular, assistir a máquina de lavar funcionando e principalmente assistir vc fazendo alguma refeição, acho impressionante que ele não se interesse pela comida, só fica observando tudo, acompanhando com a cabeça seus gestos… hahaha uma figura.
    Mas tudo no tempo dele!!!!!

    • Fabiana Xavier

      Que lindo depoimento, Ju!

      Espero que muitas pessoas leiam e vejam que não é impossível ter um peludo especial. É como você disse, ele sofreu muito e de alguma forma isso ficou marcado, mas com amor, carinho e respeito, tudo é possível.
      Fiquei muito emocionada ao ler relato, que sorte ele teve em ter encontrado você!

      Parabéns pelo seu empenho em cuidar dele e por ter adotado um peludo surdo.

      Um abraço!

  5. olá! muito obrigado pela historia, eu tenho um gatinho, o Cesar, ele é branco de olhos azuis e descobri hoje que é surdo, explicou muitas coisas, ele tem um miado muito forte, principalmente durante a noite. desde que resgatei ele a 6 meses até agora ele tem miado cada vez mais… por muitas vezes me culpei por ser um pessimo dono, pensava que era eu que acabava maltrando ele mas agora que diagnosticamos ele com surdez a abordagem muda bastante! obrigado pessoal, vocês são 10!

    • Fabiana Xavier

      Olá, Rafael!

      Ficamos muito felizes por saber que o ajudamos a compreender melhor o seu gatinho. E sim, pela surdez ele não tem noção da altura do seu miado.
      Eu tenho certeza que você é um ótimo pai de gato e pode contar sempre com a gente!
      Faça parte do nosso grupo secreto no Facebook: https://www.facebook.com/groups/amigonaosecompra/
      Se tiver alguma dúvida, posta lá! Vamos te ajudar a entender melhor o seu gatinho.

      Um abraço!

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