Bella: uma surpresa no capô do carro, parte II

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Há dois anos contamos aqui a história da Bella, uma gatinha linda que pediu socorro ao Marco Antonio Mandarino que não exitou em salvá-la. Ela estava muito ferida mas graças aos cuidados repletos de amor e carinho ela sobreviveu.
Hoje o Mandarino nos escreveu contando todo o processo pós adoção e adaptação, e é isso que a gente vai ver agora.
Leia até o final e tenho certeza que você vai se identificar e se emocionar diversas vezes.

Passados quase dois anos, hoje eu vejo que parte mais difícil não foi cuidar das queimaduras da Bella. Foram muitos meses de tratamento até que tudo cicatrizasse por completo. Não foi a longa de lista de remédios a serem administradas e as horas acordando ou mesmo os finais de semana privados para cuidar dela.

A parte mais difícil foi o depois, porque mesmo que inicialmente havíamos combinado que assim que ela estivesse recuperada nós iríamos providenciar um novo lar a ela, sabíamos que com o seu comportamento assustado e agressivo ninguém iria querê-la por perto.

Desde que me conheço por gente, sempre tive animais de estimação. Minha infância foi vivida com muitos gatos, cachorros, tartarugas e papagaios. Depois de adulto não foi diferente. Mas por conta de morar em apartamento, escolhi ter gatos, são meus preferidos.

Tínhamos a Margarida uma linda sialata que já morreu, e viveu por 17 anos. Ficou a Nina, uma tricolor de 14 anos bem delicada e pequenina. Ambas, sempre muito amorosas e carinhosas. Companheiras e nunca nos deram qualquer trabalho com relação a comportamento. Com a Margarida, mesmo depois de adulta, minha afilhada com então 2 anos na época chegava a vestir a gata com as roupas das bonecas e colocá-la no carrinho.

Com a Bella foi diferente. Ela já veio adulta e não fazíamos a menor ideia do que ela já poderia ter vivido.bella_jeito_docx_-_Google_Docs

Tinha seus hábitos e suas manias e de certo nós estávamos completamente perdidos de como “reeducá-la”. De certa forma, boa parte da ajuda, devemos a Nina que além de mostrar quem mandava na casa era ela, também foi mostrando que a casa era segura e protegida. Que aqueles dois humanos eram confiáveis.

Nossa casa sempre foi calma e tranquila, sem barulhos, então acho que isso também era um ponto positivo na adaptação da Bella.

Mas com a Nina mesmo não havia tantos problemas. Pequenos arranca rabos mas nada preocupante. Até dormiam juntas dividindo os mesmos espaços. Como no primeiro mês a Bella praticamente não conseguia sair do futon por conta das queimaduras, ela se “submeteu” e não retrucou em nada. E a Nina por sua vez não reclamou ou estranhou tanto porque sempre foi acostumada com outro gato ou cachorro.

Compramos alguns livros sobre comportamento felinos, assisti vários daqueles programas do Jackson Galaxy, entrei em contato com alguns veterinários e colegas de blogs. Tivemos que reaprender algumas coisas. Sempre escutei que as primeiras semanas de vida de um gato são cruciais para torná-lo um adulto dócil e sociável… A verdade é que sabíamos lidar com a Nina e não com a Bella.

Não gostava de ser manipulada. Bastava pegá-la que já começava o barulho, o miado ou o choro. Quando tínhamos que tirá-la da cama, por exemplo, só da gente entrar no quarto ela já se colocava em posição defensiva e fazia sons horríveis. Detalhe importante: sempre que pegávamos ela, tinha que ser por trás, nada de colo ou mãos e braços próximos a suas patas ou bocas. Ela mordia  e não eram mordidinhas, ela cravava os dentes até furar mesmo e sangrar pra valer. Minha esposa ia trabalhar no verão de manga
comprida por conta dos arranhões. Muitas e muitas vezes estávamos sentado no sofá e de repente, sem qualquer aviso a Bella vinha e dava um bote, hora pegava nos braços, nas pernas… e saia correndo…  Merthiolate e band-aid se tornaram itens obrigatórios da nossa lista de compras.

O mais estranho disso tudo é que todos os dias pela manhã, depois que eu saia, ela fazia um escândalo miando. Quando eu chegava, ela vinha correndo em minha direção e mostrava a barriga. Claro que não era para passar a mão.

Quando estávamos sentados, ela vinha e se jogava deitando seu corpo encostado ao nosso. Mas isso não significava que ela queria carinho, não tolerava muito que passássemos a mão porque logo ela ficava agitada e já queria morder ou arranhar.

Assim fomos levando, sem forçar nada, mas aos pouco fomos usando o borrifador de água e ou a palavra “NÃO”, mas de forma firme e tranquila, sem levantar o tom, mas firme. Aprendi a olhá-la nos olhos sem receio de algo acontecesse ou que ela viesse me atacar.

Aos poucos ela foi aceitando carinhos, deixou de ir miar na porta como se quisesse sair. Ficou mais calma e sempre esta atrás da gente onde quer que a gente vá. Não costuma dormir durante o dia, ao contrário da Nina que passa boa parte do dia enrolada ou debaixo de alguma coberta. A Bella adora ficar ao lado da gente, mesmo quando fazemos limpeza em casa ela não demonstra medo do aspirador ou do secador de cabelo. Adora lutar com a vassoura e se deixarmos, entra direto no box do banheiro. O mais estranho é que temos que tomar cuidado com tudo que é produto de limpeza, pois basta lavar o banheiro com água sanitária que ela fica doidinha. Nem o catnip faz tanto efeito.

Quanto às brincadeiras, tivemos que mudar, somente com brinquedos, nada de mãos. Compramos mais arranhadores, bolinhas, coisas que ela pode morder e uma casinha nova. Assim ela podia ir gastando suas energias neles e não na gente. Começamos a acostumá-la a ser escovada e ter as unhas cortadas.

Aos poucos ela foi aceitando nossos carinhos. Bastava a Nina subir no meu colo que logo ela chegava para disputar o espaço também ou então se ajeitar ao lado, mas grudadinha.bella_jeito_docx_-_Google_Docs

Agora, ela não avança mais gratuitamente, é raro. Basta não provocá-la com as mãos. Mas os sustos que ela leva com movimentos bruscos ainda não passou. Não podemos levantar o braço perto dela quando ela está muito ligada porque logo ela já coloca as orelhas para trás ou pula nas quatro patas com todas as unhas armadas… Ela é abrutalhada e todas as suas brincadeiras envolvem mordidas e arranhadas. Isso não
teve jeito por enquanto. Mas como disse, nada de usar mãos para brincar. Por outro lado ela consegue ao mesmo tempo se muito carinhosa e amorosa.

Com as nossas visitas ela nunca avançou ou fez qualquer malcriação, se esfrega, faz graça e se gostar mesmo da pessoa, deita ao lado ou pede colo. Sim, ela pede colo e ronrona como uma maquininha. Dá cabeçadas e adora se se esfregar. Conseguimos tirá-la de qualquer lugar facilmente sem show algum. Até o banho consegui dar, sem nenhum arranhão. Na verdade, ela adora água e quando escuta o chuveiro ela corre pra janela do banheiro e fica lá curtindo o vapor, o barulho ou seja lá o que for, porque nos ainda não entendemos porque ela faz isso.

O mais estranho foi quando nosso sobrinho de pouco mais de  1 ano chegou em casa, a Bella simplesmente se escondeu. Fui até a salinha pra ver e quando me sentei no sofá ao lado dela, ela pulou no meu colo, escondeu a cabeça e tremia, tremia. Fui acalmando ela e a coloquei dentro da casinha e não deixamos nosso sobrinho chegar perto dela.

Passado algum tempo depois, de tanto ela ver a Nina brincando com o nosso sobrinho, ela começou a chegar perto. Mas não deixa pegá-la, mas também não avança ou esboça qualquer agressividade.

Hoje ela está 100% melhor do que era. Dorme ao nosso lado ou mesmo em nosso colo e não se incomoda se for empurrada ou tocada. Quando chegamos nos recebe na porta e acompanha por toda a casa, mostra o barrigão e não sai dessa posição enquanto a gente não passar a mão na barriga ao menos uma vez. Ao contrário da Nina que não gosta muito da câmera, a Bella vem correndo atrás de mim toda vez que me vê mexendo na bolsa dos equipamentos.  Brinca muito e gasta muita energia com a Nina quando começam a brincar de pega pega…

Em suma, resgatar e cuidar não é fácil e são atos que envolvem muito mais do que amor e dedicação. É preciso estar preparado para fazer a coisa certa porque se errar pode não haver uma segunda chance.

Deve-se ter em mente que as mudança não vão acontecer da noite para o dia. É preciso muita paciência, perseverança. Há momentos em que você olha para o gato e se sente completamente frustrado.  Tivemos que aprender muitas coisas novas para aprender a lidar e entender a Bella. Não é uma tarefa fácil, mas é com certeza uma ótima experiência, muito gratificante. Muitos elogiam as fotos que posto na Internet, mas não fazem ideia do terror que foi antes dela aparecer assim bonitinha de barrigão pra cima…rs.

Espero que esse breve relato possa lançar alguma luz as pessoas que estão enfrentando algum tipo de relacionamento mal resolvido com seu bichano.

 

Marco Antonio Mandarino

Acompanhe aqui a continuação dessa linda história.

E aí, o que achou do fim dessa linda história de amor?
Tem alguma parecida? Compartilhe com a gente!

Até a próxima semana!

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5 Comentários

  1. Patrícia

    Linda história!
    Adaptação é algo que sempre dá frio na barriga. Eu tb tive a minha Lola (uma linda tigrada de 4 aninhos) por dois anos sozinha, só eu e ela numa carência infinita. Era eu chegar e ela deitava no chão (mão na barriga tbm never!!!! rs rs
    Tinha muito medo de adotar outro porquê todos falavam que ela era territorialista, que iria bater no outro gato, etc e etc…. Tb tinha essas brincadeiras de morder, mas isso assim como vocês eu fui educando e aprendendo a lidar. A Lola tb veio adulta, resgatada com pouco mais de 6 meses, com suas manias de rua e muito desconfiada. Cheguei a me perguntar se tinha feito a coisa certa, porquê só pra vir no meu colo ela demorou uns 3 meses.
    Depois, se desmanchou toda, mas era tão carente!
    E eu pensava, pensava, e nunca adotava.
    No natal do ano passado veio Jorginho….um bebê de 3 meses, com pulgas, vermes e gripe. Sem ter pra onde ir depois de acolhido por uma semana, mexeu com meu coração, e abri a casa e a minha vida para este pretinho tão amoroso….
    No 1º mês foram alguns fuzzzz e tapas, mas pra minha alegria de mãe, um dia os vi dormindo abraçadinhos.
    Importante ressaltar que ele é de temperamento calmo, totalmente passivo – isso contou para o sucesso da adaptação.
    Hoje eles que não se desgrudam, deixando a mamãe aqui com ciúmes rs rs

    Quanto a Lola….a Lola mudou, Ainda é danada, fica na porta, mas se mostrou uma companheira para o irmão, tudo fazem juntos, até a caixa de areia usam juntos.
    Ainda acho as brincadeiras meio brutas, Às vezes, mas quem tem gato diz que é normal, eu nunca tive antes deles…..
    mas enfim, se eu tiver que recomendar a adoção conjunta – sim, muito!
    é muito bom ver dois bichinhos que se amam e se fazem companhia brincar e dormir juntos. E se eu soubesse, teria adotado dois de uma vez, mas enfim.
    E ah, a Lola foi adotada por este site! ;-)

    um beijo.

  2. Bia

    essa é que é a grande diferença de adotar cães ou gatos. Gatos a gente tem que conquistar, e dependendo do que o bichano já passou na vida, confiar no “ser humano” pode demorar muito! Cães aceitam o carinho mais fácil, em poucos dias já viram de barriga pra cima… Meus bebês são de casa de família, mãe dócil, pai só Deus sabe… Demorei 3 dias para conseguir tocar no machinho, 1 semana pra conseguir segurar a femeazinha, que é mais desconfiada… E só após 20 dias eles quiseram dormir comigo… isso é que é tão gostoso, gatos são amigos sinceros e leais, quando amam a gente é pra valer, porque eles nos analisam muito antes de confiar… Também recomendo pra quem ainda não adotou, adote 2 de uma vez! Bela história! :)

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