Bella: uma surpresa no capô do carro

“6h15 da manhã, parado no posto abastecendo o carro. Estava ao lado da bomba quando ao meu lado pára outro carro para abastecer. Não prestei muita atenção, mas quando o frentista abriu o capô daquele carro, um gato rajado e enorme estava completamente paralisado sobre o motor. Não miou, não deu um pio, simplesmente pulou e correu para dentro do meu carro que estava com a porta aberta. O motorista do outro carro não conhecia ou fazia a menor ideia de quem pertencia aquele gato. A única coisa que descobri é que ele já estava rodando a cerca de 20 minutos. E agora? Eu estava a caminho do trabalho… Deixei meu cartão com o motorista, caso ele soubesse do dono e o pessoal do posto, ficou avisado, afinal sou cliente alguns anos e todos me conhecem, se alguém aparecer por lá atrás do gato, ficarei sabendo. Entrei no carro, olhei pelo retrovisor e vi que o gato esta assustado, mas não avançou, não deu um pio. Nessa hora me veio na cabeça a Margarida, uma vira lata de olhos azuis que foi nossa companhia por quase 17 anos e que exatamente naquele dia, completava 1 ano da sua partida.

Ao chegar ao trabalho tentei tirá-la do carro, havia muito pelo solto, estava assustada, estática. Olhei e não vi nenhum ferimento, apenas uma vermelhidão na barriga e na perna traseira. Bom, peguei-a e levei-a para a minha sala, coloquei-a em uma caixa de plástico e ela dormiu. Liguei para minha esposa e contei o que aconteceu e na hora ela se derreteu e disse para levá-la quando voltasse para o almoço.

Nesse meio tempo contatei uma veterinária perto de casa que já havia nos ajudado com uns filhotes que haviam sido abandonados e que estavam muito machucados. Mas essa é outra história e que felizmente terminou muito bem. A veterinária me disse que se ela estivesse queimada não daria para ver nada nas primeiras horas, e que provavelmente nas próximas horas aquela vermelhidão iria ficar feia e muito séria. Pediu para levá-la o quanto antes.

Fui para casa, peguei a casinha de transporte da Nina (nossa tricolor de 14 anos que foi a última de uma ninhada e rejeitada pela mãe) e lá fomos. A médica fez alguns exames e disse: vai ficar feio, vai dar trabalho e ela (era uma fêmea) vai sentir muita dor, as queimaduras foram severas na barriga e na pata esquerda. Poderá ficar com cicatrizes sérias e até atrapalhar para andar e pular. Ela estava infestada de pulgas, suas orelhas estavam infestadas e ainda havia um sangramento por conta da quantidade de vermes. E que ela deveria ter no máximo 2 anos de idade. Diante da situação eu disse para fazermos o que fosse possível, não dá para simplesmente não fazer nada.

Não deu outra: dois dias depois ela a pele da barriga e da pata traseira começaram a infecionar e a cair. Para ajudar a pele das almofadas e dos dedinhos começaram a se soltar também.

Quando voltou do veterinário, ainda anestesiada, ficou assim por dias.

Muita paciência, muita dedicação e uma lista enorme de remédios a serem ministrados, alguns difíceis de serem encontrados ou caros. A cada 15 dias tínhamos que levá-la em uma clínica para tomar uma injeção. Dia sim, dia não passávamos com ela na veterinária para fazer o acompanhamento. Como já havia cuidado da Margarida durante seus últimos 3 meses com a aplicação de soro e medicação subcutânea, achei que passar pomada e dar remédios via oral não fosse tão difícil. Estava enganado. Cuidar dela deu trabalho e sua recuperação foi muito lenta. Procuramos fazer de tudo para que ela ficasse confortável e não sentisse dor. Se ela era de rua ou foi abandonada nunca saberemos. Por conta das queimaduras não dava para ver se havia cicatriz de castração ou mesmo fazer um ultrassom para saber se estava grávida… Essas perguntas iriam ter que esperar. De qualquer forma eu arrisco o palpite de que ela tinha dono pois não come comida, nem carne ou atum ela liga. Nem pastinha, só come a ração seca. Acredito que se fosse de rua ela comeria qualquer coisa.

gatinha com colar abajur

Cara de felicidade por usar esse colar. 2 meses assim para não lamber as queimaduras.

Ela ficou cerca de 2 meses com aquele colar e praticamente não levantava do cobertor, deixava medicá-la mas à medida que foi melhorando, ia se tornando arisca e agressiva. Qualquer gesto ou barulho era motivo para pular ou virar uma fera. E a Nina? Bem, desde que a Bella chegou a Nina mostrou que manda na casa é ela e tudo ficou bem. Hoje ambas brincam e dormem juntas sem maiores problemas. Só é preciso ficar de olho nas brincadeiras pois a Bella pesa cerca de 5,5Kg e a Nina no máximo 2Kg… Ela é miudinha, sempre foi. Ficamos praticamente 3 meses nos revezando nos horários e não saíamos nos fins de semana para não perder o controle da medicação.

De inicio, eu e minha esposa combinamos que cuidaríamos dela e que assim que se recuperasse seria castrada e procuraríamos um lar para ela. Ledo engano, a Bella foi tomando conta de nossos corações. Ao mesmo tempo em que ela era uma fera em alguns momentos, em outros ela era muito carinhosa e aos poucos acho que ela foi se sentindo segura e protegia e foi se acalmando. Ainda se assusta facilmente, mas parece um cachorrinho atrás de mim, pra tudo, inclusive me acorda todo dia pela manhã. Parece que ela sabe que tenho que ir trabalhar. Vou tomar banho, ela vai para a janela do banheiro, vou me trocar ela vai atrás, tomando café na cozinha, ela está no chão comendo a ração dela. Minha esposa diz que no inicio ela miava quando eu fechava a porta. Agora não, ela volta pra cama e fica até minha esposa levantar. Eu chego e tenho que tomar cuidado ao abrir a porta, ela vem correndo e pulando em direção a porta e se esfregar nas minhas pernas, vira de barriga pra cima pra passar as mãos.

gata na janela

Lugar preferido para tomar sol, e sentada.

De fato não sabemos se ela foi largada ou se era de rua. Por sorte ela não estava grávida, porque não iriamos saber o que fazer para lidar com tatas queimaduras e uma gravidez. Só de encostar nas barriga dela para medicá-la a bichinha chorava. A veterinária disse que com certeza ela não iria sobreviver na rua com um ferimento deste. Mas ele lá em cima sabe o que faz.

Passados quase 1 ano ela faz parte da família, já consigo dar banho (nunca vi um gato gostar tanto de água) e corto as unhas, limpo as orelhas e ela não avança mais. Antes não deixava nem escovar. As cicatrizes ficaram escondidas por debaixo do pelo que cresceu bem espesso para o espanto de todos. Não ficou nenhuma sequela e seus movimentos são perfeitos. Ela está muito saudável e com um pelo grosso e macio. Suas brincadeiras ainda são bruscas e sempre envolvem unhas e mordidas, mas basta não usar as mãos para brincar com ela. Usamos alguns brinquedos próprios que ela pode morder e arrastar pela casa. Por outro lado ela é muito carinhosa, adora ficar em nosso colo, principalmente agora que está ficando frio. Ela simplesmente pula e se joga na gente sem pedir licença. Ela sempre mostrou essa necessidade de ter que ficar encostada em nós. Praticamente não dorme durante o dia, parece uma maquininha. Às vezes nem a Nina tem paciência com ela e já mete logo uma patada.

Com certeza ela nos trouxe muita alegria e nos ensinou a ter mais paciência na vida. Afinal os bichos merecem nosso amor e devemos tratá-los com respeito. Ela apareceu em nossas vidas porque era a hora dela ou a nossa, isso ninguém sabe, apenas que nada é por acaso.”

Marco Antonio Mandarino

gatinha natal

Dezembro de 2012, pose para nosso cartão de Natal. Olhando assim, ninguém desconfia o que ela passou…

Conheça a continuação dessa linda história aqui.

Gostou da história? Conheça os peludinhos que esperam pela mesma sorte que a Bella.

 

Leave a Reply

15 Comentários

  1. Marisa

    Que história bacana! Tenho vários gatos adotados, são meus amores!

  2. Claudia Villani

    Que história linda! Parabéns!
    Raríssimas pessoas fariam o que voces fizeram. Isso nos ajuda a acreditar que ainda existe amor dentro do ser humano.

  3. irene orta

    gente eu mesmo tenho 8 e 4 são da rua mais s]ão os meus tesouros so agora que esta frio que é dificil dormir pois eles todos vem na minha cama não consigo nem me esticar mais os amo lindo exemplo esta historia seria muito bom que muitas pessoas fosem assim obrigado

  4. Billy

    hammm hammm ….eu tenho 2 gatos e por acaso do destino salvei uma mãe e dois filhotinhos de virarem asfalto!! hoje tenho que arrumar um lar para eles pois não tenho condições de cuidar de 5!! só que o gozado que essa mãezinha me olha com um olhar que me deixa abobado!!! sei lah será que é coisa do destino? kkkkkk

  5. rodrigov8ao

    show, isso é muito gratificante para nós que amamos os bixinhos você esta de parabéns, um forte abraço e fique na paz.

  6. kassio fernandes

    Cara isso sim e historia , voce tem meu total RESPEITO .

    pena que nem todo mundo e assim com os animais. ”/

  7. Lilian Younes

    Linda estória essa da Bella e lógico, envolvendo pessoas carinhosas, dedicadas e amantes dessas coisas peludas deliciosas. Parabéns!!!!E que continuem assim, muito felizes!!!!

  8. Patrícia

    Que coisa mais linda, graças a Deus existem pessoas como vc e sua esposa no mundo, parabéns!

  9. Pingback: Bella: uma surpresa no capô do carro (parte final)Amigo não se compra

  10. Pingback: Bella: uma surpresa no capô do carro, parte III

  11. Pingback: Bella: uma surpresa no capô do carro, parte IV

  12. Gustavo Raposo

    Tinha um gato como este ele é adotado,o nome dele era Mike porém ele faleceu nos deixando muito triste.Que bela historia da Bella.

  13. Pingback: Adotei um animal e me arrependi. O que fazer?

Next ArticleTem novidades no Amigo Não se Compra!