O adotante quis devolver o bichinho… e aí?

Quem é protetor sabe bem a sensação de frustração que dá. Você resgata o bichinho, cuida, trata, vacina, segue as melhores práticas pra garantir sua saúde e bem estar. Na hora de conseguir um adotante, o mesmo cuidado: dos vários candidatos que aparecem, você entrevista, conversa, explica, e por fim conclui que um deles será a família dos sonhos para o cãozinho ou gato resgatado. Esse é o momento em que todo o seu trabalho valeu a pena: a vida daquele peludo ganhou um final feliz de verdade!

Só que não. Alguns dias ou semanas depois, aquela família maravilhosa resolve devolver o bichinho. “Ele mia demais”, “Ele late muito”, “Ele fez xixi no tapete”… os motivos não acabam. E você fica se perguntando “como é que deixei isso escapar na hora da entrevista??”

Talvez o problema não seja sua entrevista, nem seu questionário. E nem mesmo o adotante.

Talvez isso nem seja mesmo um problema.

Quando um casal decide adotar uma criança (humana), há uma fase chamada Guarda Provisória, que é um período de experiência e avaliação. Por que não podemos aceitar que esta etapa aconteça também com a adoção de animais? Sim, porque muitas vezes, por mais que o casal deseje uma criança, é preciso passar pela situação para ver se acontece uma boa adaptação. O mesmo acontece na adoção de animais: existe um período de experiência para saber se a adaptação vai acontecer ou não. Pode ser até mesmo que o próprio animal não goste do novo lar – afinal ele também tem suas sensações e sentimentos, que podem ser positivas ou negativas. É claro que ninguém vai ficar feliz ao ter um animal devolvido, mas a ideia é encarar a situação com mais naturalidade e menos frustração.

Primeiro, quero sugerir que a falta de adaptação de um adotante a um bicho deveria ser encarada de forma natural, que pode acontecer em qualquer caso. E “apertar” ainda mais nas entrevistas e nos questionários de adoção não garantem uma boa adoção, e pior: muitas vezes acabam por espantar um bom adotante. Por exemplo: já cheguei a ver questionários que perguntavam até se a moradia da pessoa era própria ou alugada. Oi?? Eu mesma morava em apartamento alugado quando adotei os dois gatos que vivem comigo… cá entre nós, sou uma excelente humana de estimação para meus gatos e mesmo se por algum motivo tivesse que sair do apartamento, com certeza cuidaria de procurar um outro que tivesse as melhores condições para os meus bichinhos – que foi o que fiz quando me mudei para o atual. Imagino que o medo dos protetores seja do senhorio não permitir animais, ou da pessoa ter que se mudar… mas será que realmente uma pergunta dessas protege o bicho de um futuro abandono? E quantos ótimos adotantes estariam sendo desperdiçados, pessoas que jamais abandonariam um animal independente da situação em que vivem?


Uma história para ilustrar o que digo

Há cerca de 10 anos atrás minha irmã achou um gatinho no rio. Ele estava em lar temporário até que minha amiga, que dizia não gostar de gatos, foi nos visitar e se encantou por ele. Como as irmãs estavam há um tempo pedindo um bichinho de estimação, ela achou que valeria a pena levá-los. O outro problema é que seus pais também nào gostavam de gatos. E, vamos combinar: todo protetor sabe que a regra número 1 da adoção é: todos os membros da família devem estar de acordo com a adoção.

Mas algum instindo me fez pensar que aquilo poderia dar certo mesmo assim. Então o combinado foi: ela levaria o gatinho e, caso não desse certo, me traria ele de volta. E assim foi. Já no segundo dia, uma terça-feira, ela me liga dizendo que vai devolver o gatinho, pois seus pais não gostaram nada da ideia. Tudo bem, valeu a tentativa. Porque apesar de a gente pensar “coitado, foi rejeitado”,
para o gatinho aquilo foi no máximo um passeio de final de semana; afinal, embora não muito desejado ele estava sendo bem tratado. Combinei de buscá-lo dali a quatro dias, no sábado seguinte. Mas é aí que entra a parte curiosa da história: na quinta-feira ela me liga dizendo que mudaram de ideia: nesse meio-tempo os pais se encantaram pelo bichinho e decidiram ficar com ele. Resumo da história: hoje, 10 anos depois, o gato é o rei da casa, amado por todos e tratado a pão-de-ló. Eis que essa família, que não passaria por nenhum questionário de adoção, se tornou um destino maravilhoso na vida do gatinho, que agora se chama Nero e impera pela casa.

Mas espere!

Antes de você pensar “esta louca está incentivando a adoção irresponsável”, quero deixar claro que minha sugestão é que a guarda provisória aconteça quando o protetor consegue construir uma relação com o adotante e manter contato durante um certo tempo – até que todos se decidam pela adoção definitiva. Ela não substitui a entrevista, mas as torna mais flexíveis. E dá à pessoa indecisa a chance de tentar na prática ter um bichinho de estimação – sem o contrangimento de ser julgada se por acaso depois de 1 semana perceber que ainda não está preparado.

A ideia aqui é tentar uma nova maneira de conduzir um processo de adoção, baseada em uma experiência real e que, embora seja mais trabalhoso, pode aumentar o número de adoções ao dar a seres humanos – e ao bichinho – a chance da tentativa. Obviamente não é um método de avaliação 100% garantido (nenhum é), mas certamente pode fazer com que muitos ótimos adotantes, que seriam rejeitados pelos formulários, tenham a chance de mostrar o quanto podem ser especiais para o bichinho.

E você, o que acha disso? Tem alguma história pra contar?

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5 Comentários

  1. MARIA JOSE RAMOS PECCENINI

    Boa tarde
    Adotei meu amorzinho, que veio me seguindo na rua com uma das unhas arrancadas, febre, pulgas, carrapatos e muito assustado. Ele olhou pra mim e me adotou de imediato. Foi me seguindo até em casa, coloquei-o pra dentro com a intenção de medicá-lo e assim que melhrasse o devolveria pra rua. Imagine! Não tive coragem (ainda bem). Ele está conosco há quase 2 meses, super bem tratado e amoroso. Ocorre que ele fica sozinho o dia inteiro e noto que embora nos ame imensamente, ele tem uma certa ansiedade em querer voltar pra rua. Um outro problema que enfrento é que no maximo em janeiro estarei de mudança para Italia e infelizmente não poderei levá-lo nesta empreitada, então, antes que eu me apegue a ele mais do que já me apeguei, gostaria de encontrar uma nova mãe pra ele, que o trate com o mesmo amor que eu.
    Como devo proceder? Como posso enviar foto dele pra vocês?
    Já divulguei entre os amigos mas não consegui um adotante. Agradeço me ajudarem.
    Um abraço
    Maria José

  2. Tha

    Boa Tarde.
    Me encantei com seu texto, pois a minha história é de adotar duas gatas adultas (+/-1 ano e 2 meses). Uma se adaptou super bem, tem o canto do sofá favorito, brinquedos e dorme na nossa barriga de noite na cama. E infelizmente a outra não se adaptou em casa. Muito medrosa e acabou se tornando um problema para ela, pois, ao colocar ração, não podia ficar por perto, senão ela se assustava e corria para sua caixa. Quando estava usando a caixinha de areia e a gente precisava lavar a mão/fazer xixi/tomar banho, ela também corria… Fizemos a entrevista para adoção responsável e já tínhamos outros gatos em casa. Contudo, ao pensar na responsabilidade de dar uma boa condição de amor, carinho e bem estar da gatinha, decidimos por devolver-la a ONG que nos doou, pois não é nem um pouco saudável viver com medo, mesmo que cuidávamos bem dela.
    Claro que existe a outra parte da história, o nosso sentimento de fracasso. Por que com ela não deu? Mas apenas não deu certo.
    Muitas pessoas acabam julgando demais, dizendo que é pecado devolver/irresponsabilidade, mas pecado mesmo é ver ela se assustando a toa, sem viver em paz, dormir com orelha em pé, sempre alerta.
    Pena que, uma ideia tão boa em 2014, não tenha virado mais que uma ideia em 2017.
    Ao menos as pessoas da ONG entenderam muito bem a situação e deram todo apoio para retorna-lá.

    • Fabiana Xavier

      Olá, Tha!

      Infelizmente nem todos os peludos se adaptam em nossa casa e por “N” motivos! Fez correto em tentar contornar, pois muitas vezes é só um medo ou estranhamento passageiro. Mas quando você nota que a adaptação realmente não vai acontecer, se possível a devolução ok, caso contrário também indicamos a busca de um novo lar.
      Não se sinta mal por não ter dado certo, muitas pessoas passam pelo mesmo que você e assim como o outro gatinho se adaptou a sua casa, é possível que um outro também se adeque ao seu lar.

      Obrigada por dividir sua experiência com a gente! :)

      Um abraço!

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